Vazamento radioativo no Ipen: o que se sabe sobre os riscos do material encontrado

  • 12/06/2026
A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) confirmou um incidente radioativo em São Paulo nesta quinta-feira (11). Segundo a Comissão, o incidente ocorreu durante a retirada de sensores biológicos de uma autoclave utilizada na produção de radiofármacos. Dois trabalhadores que estavam no local passaram por exames e os resultados indicaram que não houve contaminação interna. Mas afinal, o que é o tecnécio e por que ele perde força tão rapidamente? Um átomo instável tentando se transformar Para entender o tecnécio, é preciso imaginar os átomos como pequenas estruturas formadas por partículas. Alguns átomos são estáveis e conseguem permanecer iguais por tempo praticamente indefinido. Outros são instáveis e tentam se reorganizar para atingir uma configuração mais estável. É nesse grupo que está o tecnécio. "O tecnécio emite radiação porque seu núcleo é instável. Ao liberar energia, ele tenta alcançar uma condição mais estável", explica o professor de química Rodrigo Machado. Essa energia liberada na forma de radiação é capaz de atravessar tecidos e interagir com as células do corpo. Dependendo da intensidade da exposição, ela pode provocar danos em componentes celulares e até no DNA. No entanto, isso não significa que qualquer contato com o material represente um risco elevado. Por que o tecnécio é usado em hospitais? A versão mais utilizada na medicina é o tecnécio-99m, um radioisótopo empregado em exames de imagem para diagnosticar doenças cardíacas, ósseas, renais e diversos outros problemas de saúde. A principal vantagem do elemento é justamente sua curta duração. Depois de ser administrado ao paciente, ele emite radiação suficiente para que equipamentos consigam registrar imagens do funcionamento dos órgãos. Poucas horas depois, porém, essa radioatividade começa a desaparecer rapidamente. Por isso, o tecnécio-99m é considerado um dos radiofármacos mais importantes da medicina moderna. O que significa meia-vida de 6 horas? Uma das características mais conhecidas do tecnécio-99m é sua meia-vida de aproximadamente seis horas. A meia-vida é o tempo necessário para que metade dos átomos radioativos presentes em uma amostra se desintegre. Uma comparação simples ajuda a entender. Imagine que existam 6 gramas de tecnécio. Após seis horas, restariam apenas 3 gramas. Depois de mais seis horas, sobrariam 1,5 grama. Seis horas depois, apenas 0,75 grama, e assim sucessivamente. Ou seja, a quantidade de material radioativo vai diminuindo continuamente. Esse decaimento rápido é uma das razões pelas quais o material é considerado adequado para uso médico. Então não há risco? Não exatamente. Segundo Machado, o fato de o material desaparecer rapidamente reduz o tempo durante o qual a radiação permanece ativa, mas o risco continua dependendo da quantidade envolvida. "Se houver uma quantidade muito grande de material, ainda pode existir exposição significativa mesmo com uma meia-vida curta", afirma. Em outras palavras, a velocidade com que a radioatividade diminui é apenas um dos fatores considerados na avaliação de segurança. Também entram na conta o volume de material presente, a proximidade das pessoas expostas e o tempo de contato com a substância. Por que a CNEN avaliou que o risco foi baixo? No caso do incidente registrado no Ipen, a CNEN informou que foram detectados apenas traços de tecnécio. Em linguagem simples, isso significa que as quantidades encontradas eram muito pequenas. Além disso, os exames realizados nos trabalhadores indicaram ausência de contaminação interna, ou seja, o material não foi incorporado ao organismo. Para especialistas, esses dois fatores são fundamentais para avaliar o potencial de risco. Embora a radiação emitida pelo tecnécio possa causar danos biológicos em determinadas condições, exposições muito pequenas tendem a representar riscos igualmente reduzidos. Por isso, a análise de episódios como o ocorrido no Ipen depende não apenas da presença da substância, mas principalmente da quantidade envolvida e da dose efetivamente recebida pelas pessoas expostas.

FONTE: https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2026/06/12/vazamento-radioativo-no-ipen-sp.ghtml


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